Empreitada por preço global vs outras modalidades

Antes de assinar qualquer coisa, é preciso saber exatamente qual modelo de contratação está na mesa. Existem três modalidades principais:

  • Empreitada por preço global (ou "empreitada total"): a empreiteira fornece mão de obra e materiais e cobra um preço fixo pela obra completa. É a mais comum e a que mais gera conflitos quando o escopo não está bem definido.
  • Empreitada por administração: o proprietário compra os materiais, e a empreiteira fornece apenas a mão de obra, cobrando um percentual sobre o custo total (geralmente 8% a 15%). Dá mais controle ao dono da obra, mas exige muito mais gestão.
  • Subempreitada por ofício: cada serviço é contratado separadamente — pedreiro, eletricista, encanador, pintor. Pode ser mais barato, mas a responsabilidade de coordenar tudo fica inteiramente com o proprietário.

Este guia foca na empreitada por preço global, pois é a modalidade onde os contratos costumam ter mais lacunas — e onde os prejuízos tendem a ser maiores quando algo dá errado.

As 10 cláusulas que não podem faltar

Todo contrato de empreitada por preço global deve conter, no mínimo:

  1. Escopo detalhado com referência ao projeto: o objeto do contrato deve ser específico — "construção de residência conforme projeto arquitetônico aprovado n.º [X]" — com o memorial descritivo anexado ao contrato. "Execução de obra residencial conforme combinado" não é escopo; é um convite para disputas.
  2. Especificação de materiais por cômodo: liste marca de referência ou "similar aprovado pelo contratante" para cada item relevante — piso, revestimento, louças, metais, esquadrias. Sem essa especificação, qualquer porcelanato de R$ 15/m² é "porcelanato".
  3. Preço global fixo e condições de reajuste: o valor total deve ser expresso claramente, com o índice de reajuste (INCC ou CUB do estado) e o prazo mínimo para aplicação — nunca inferior a 12 meses. Reajustes em prazos menores ou por índices não previstos são abusivos.
  4. Cronograma financeiro vinculado ao físico: os pagamentos devem estar atrelados à conclusão verificada de cada etapa — nunca adiantados. O modelo mais seguro: percentual na assinatura (máximo 20–30%), parcelas nas entregas de fundação, estrutura, cobertura, instalações e acabamentos.
  5. Prazo de execução com multa por atraso: defina a data de conclusão e aplique multa de 0,1% a 0,5% do valor do contrato por dia de atraso injustificado. A multa pré-fixada é mais eficaz do que cobrar "perdas e danos" — estes precisam ser provados; a multa, não.
  6. Cláusula de abandono: penalidade específica para abandono de obra, separada da multa por atraso. O abandono é o cenário mais grave: obra parada, equipe dispersa, dificuldade de retomar. A multa por abandono costuma ser 10–20% do valor total do contrato.
  7. Retenção de garantia: retenha 5% do valor total para pagamento somente após vistoria final e aceite da obra. Esse percentual mantém a empreiteira comprometida com correções e acabamentos até o último dia.
  8. Garantia pós-obra: o mínimo legal é 5 anos para defeitos estruturais (Código Civil, Art. 618), 1 ano para instalações e sistemas e 90 dias para vícios aparentes. O contrato pode e deve especificar esses prazos — "conforme a lei" sem detalhar deixa margem para discussão.
  9. ART/RRT de execução: a empreiteira deve apresentar a Anotação de Responsabilidade Técnica (engenheiro) ou Registro de Responsabilidade Técnica (arquiteto) de execução no início dos trabalhos. Conste explicitamente que o pagamento da primeira parcela fica condicionado à entrega desse documento.
  10. Foro de eleição e reconhecimento de firma: defina a comarca do local da obra como foro competente em caso de litígio. Exija reconhecimento de firma em cartório para ambas as partes — o custo é baixo (R$ 30 a R$ 80 por assinatura) e o valor probatório, alto.

Calcule o custo estimado da sua obra antes de negociar o valor com a empreiteira — ter uma estimativa independente muda a conversa.

Diferença entre empreitada e administração: quando usar cada uma?

A escolha do modelo de contratação depende do tempo, da experiência e do apetite por controle que você tem. A tabela abaixo resume as diferenças práticas:

Critério Empreitada global Por administração
PreçoFixo (previsível)Variável (pode ser menor ou maior)
Controle de materiaisEmpreiteira decide (dentro do especificado)Proprietário compra tudo
Gestão necessáriaBaixaAlta
Risco de superfaturamentoMédio (materiais sem nota)Baixo (proprietário compra direto)
Indicado paraQuem não tem tempo para gerenciarQuem quer controle total

→ Veja também: guia completo sobre contrato de obra com as 12 cláusulas essenciais.

Os 5 sinais de que o contrato que te apresentaram é ruim

Se o contrato que a empreiteira trouxe tiver qualquer um desses pontos, não assine sem negociar:

  • Prazo de entrega sem nenhuma penalidade por atraso
  • Pagamentos em parcelas fixas sem vínculo com etapas concluídas
  • Escopo de uma linha — "execução de obra residencial conforme combinado"
  • Sem menção a ART/RRT de execução
  • Garantia apenas "verbal" ou "conforme a lei" sem prazos especificados

Qualquer um desses itens por si só já é um sinal de alerta. Todos juntos no mesmo contrato indicam que o documento foi escrito para proteger a empreiteira — não você.

Como negociar um contrato melhor

Três orientações práticas para quem está prestes a assinar:

  1. Não assine o modelo "padrão" da empreiteira sem ler e alterar. Ele foi escrito por eles, para eles. Isso não significa que a empreiteira é desonesta — significa que o contrato padrão favorece quem o redigiu. Negocie cada cláusula que não estiver clara.
  2. Contrate um advogado para revisar. Para obras acima de R$ 100 mil, um advogado especializado em direito da construção civil cobra entre R$ 300 e R$ 800 para revisar o contrato — provavelmente o menor custo jurídico de toda a obra, e um dos mais importantes.
  3. Se a empreiteira recusar cláusulas básicas de proteção, esse é o sinal mais claro de que você não deveria contratá-la. Uma empresa séria sabe que essas cláusulas protegem ambos os lados — e não vai se recusar a colocá-las no papel.